Não tenho religião, não gosto de rituais, não acredito em sacerdotes, mas tenho trabalhado para fortalecer a minha fé. Há alguns anos, num sábado de Aleluia, encontrei um homem e um menino, na porta de uma igreja aqui na Província. Os dois, muito sujos, estavam sentados num degrau e quando eu passei eles me pediram alguma coisa para comer. Foi o olhar deles que me prendeu ali. Disse que naquele momento não, mas se eles esperassem um pouquinho eu iria até em casa e traria alguma coisa.
- Se a senhora vai voltar a gente espera, moça.
Corri como nunca e preparei alguns sanduíches que coloquei em uma sacola junto com uma caixa de leite e uns chocolates, afinal era quase Páscoa. Voltei até a igreja e eles estavam ali, me esperando. Entreguei a sacola e me desculpei por ser tão pouco o que eu tinha pra oferecer. Os olhos do homem se encheram de lágrimas quando viu o conteúdo do pacote.
- Muito obrigado, moça, eu imaginei que a senhora fosse voltar mesmo, mas não esperava um presente tão grande! Olha, Davi, tem até chocolate! Agradece, meu filho!
O menino Davi, que não tinha mais do que sete anos, magrinho e franzino, me olhou e perguntou se podia me dar um abraço.
- Por favor, respondi, é claro!
Quando me dei conta, estávamos os três abraçados e chorando, em pleno sábado de Aleluia. Não sei descrever a sensação daquele momento. Imagino que seja algo como uma experiência divina, uma alegria tão grande dentro do peito que parecia o coração transbordando.
Nunca mais encontrei os dois depois disso, mas tenho uma certeza enorme de que algo muito bom aconteceu a eles e fico feliz por isso, apenas por sentir.
Outro dia estava sentada num banco do parque, junto com a Menina Laurinha. Um homem se aproximou de nós, carregando um bolo de santinhos com a figura do menino Jesus de Praga, de quem a minha vó Miqui falava sempre.
Ele pôs a mão no meu ombro e disse:
- A senhora me dá licença, eu sou negro mas não sou bandido.
- Nossa, moço, que é isso? Aquela afirmação me fez despertar para a realidade do mundo.
Ele me estendeu um santinho.
- Não tenho dinheiro comigo, moço.
- Vamos falar em hebraico então, disse ele colocando o santinho na minha mão - shalom!
- Shalom - respondi enquanto ele se afastava - moço, moço, o senhor esqueceu o santinho...
Mas ele tinha desaparecido.
Lembro do homem que encontrei meditando na beira da praia, em Torres, numa noite estrelada. Senti uma enorme necessidade de sentar ao lado dele, mesmo sem se convidada. Ele estava todo vestido de branco e sorriu. Perguntei o que ele fazia ali e ele me disse que estava meditando, que seu nome era João e ele trabalhava com ervas medicinais. Conversamos um pouco mais e fomos interrompidos por meus amigos que se aproximavam pela areia. Pedi licença, me despedi e agradeci a companhia. Ele continuava sorrindo. Caminhei até meus amigos e me virei para mostrar o homem com que estava conversando. Adivinhem... não havia ninguém mais na praia.
Quem são essas pessoas? De onde elas vêm e para aonde vão depois, que nunca mais as encontro?
Mistério.