sábado, 19 de maio de 2012

Retorno

O sentimento que ficou no ar há décadas traz de volta o mesmo calor derramado no peito quando ele reaparece. Tão mais velho, tão mudado e tão igual. Eu procurei por muito tempo e quando já havia desistido, ele surge de repente e reacende a bagunça dentro de mim. E unidade de medida nenhuma pode mudar isso.

“Foi para mim um dia memorável, pois exerceu
sobre mim grandes mudanças. Mas o mesmo sucede
em qualquer vida. Imagine eliminar-lhe um determinado
dia e pense no quão diferente o seu curso
teria sido. Detenha-se, você que lê isto, e pense por
um longo momento nas longas cadeias de ferro ou
ouro, de espinhos ou flores, que jamais o teriam
aprisionado, não fosse a formação do seu primeiro
elo nesse dia memorável.”
Charles Dickens, Grandes Esperanças

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Reciclar o lixo interior é preciso

Então, num dia qualquer, ela descobriu que a vida não foi exatamente aquilo que ela sonhou aos 20, nem o que projetou aos 30. A vida é só uma pancada na bunda que te joga pra frente. A gente idealiza, espera, acredita demais e não vê o precipício. Na ânsia de querer viver o sonho ela enxergou o que queria naquele par de olhos amarelos, numa noite chuvosa de julho. Viu o que queria, não quem realmente ele era.  Levou muito tempo pra entender que tudo não passou de um capricho, uma fagulha que precisa de muito mais oxigênio para continuar existindo. Faltou ar, sobraram temporais. Não era um amor tão grande assim. E nunca valeria mais do que um ou dois lenços de papel.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

você trabalharia num lugar assim?


O Selgas Cano é um escritório de arquitetura que fica na Espanha, próximo a Madrid. 
O projeto, além de lindo, economiza energia e promove integração com a natureza. É felicidade pura trabalhar num lugar assim. Fala sério, eu moraria no trabalho! 

quarta-feira, 21 de março de 2012

Shalom

Não tenho religião, não gosto de rituais, não acredito em sacerdotes, mas tenho trabalhado para fortalecer a minha fé. Há alguns anos, num sábado de Aleluia, encontrei um homem e um menino, na porta de uma igreja aqui na Província. Os dois, muito sujos, estavam sentados num degrau e quando eu passei eles me pediram alguma coisa para comer. Foi o olhar deles que me prendeu ali. Disse que naquele momento não, mas se eles esperassem um pouquinho eu iria até em casa e traria alguma coisa.
- Se a senhora vai voltar a gente espera, moça.
Corri como nunca e preparei alguns sanduíches que coloquei em uma sacola junto com uma caixa de leite e uns chocolates, afinal era quase Páscoa. Voltei até a igreja e eles estavam ali, me esperando. Entreguei a sacola e me desculpei por ser tão pouco o que eu tinha pra oferecer. Os olhos do homem se encheram de lágrimas quando viu o conteúdo do pacote.
- Muito obrigado, moça, eu imaginei que a senhora fosse voltar mesmo, mas não esperava um presente tão grande! Olha, Davi, tem até chocolate! Agradece, meu filho!
O menino Davi, que não tinha mais do que sete anos, magrinho e franzino, me olhou e perguntou se podia me dar um abraço.
- Por favor, respondi, é claro!
Quando me dei conta, estávamos os três abraçados e chorando, em pleno sábado de Aleluia. Não sei descrever a sensação daquele momento. Imagino que seja algo como uma experiência divina, uma alegria tão grande dentro do peito que parecia o coração transbordando.
Nunca mais encontrei os dois depois disso, mas tenho uma certeza enorme de que algo muito bom aconteceu a eles e fico feliz por isso, apenas por sentir.

Outro dia estava sentada num banco do parque, junto com a Menina Laurinha. Um homem se aproximou de nós, carregando um bolo de santinhos com a figura do menino Jesus de Praga, de quem a minha vó Miqui falava sempre.
Ele pôs a mão no meu ombro e disse:
- A senhora me dá licença, eu sou negro mas não sou bandido.
- Nossa, moço, que é isso? Aquela afirmação me fez despertar para a realidade do mundo.
Ele me estendeu um santinho.
- Não tenho dinheiro comigo, moço.
- Vamos falar em hebraico então, disse ele colocando o santinho na minha mão - shalom!
- Shalom - respondi enquanto ele se afastava - moço, moço, o senhor esqueceu o santinho...
Mas ele tinha desaparecido.

Lembro do homem que encontrei meditando na beira da praia, em Torres, numa noite estrelada. Senti uma enorme necessidade de sentar ao lado dele, mesmo sem se convidada. Ele estava todo vestido de branco e sorriu. Perguntei o que ele fazia ali e ele me disse que estava meditando, que seu nome era João e ele trabalhava com ervas medicinais. Conversamos um pouco mais e fomos interrompidos por meus amigos que se aproximavam pela areia. Pedi licença, me despedi e agradeci a companhia. Ele continuava sorrindo. Caminhei até meus amigos e me virei para mostrar o homem com que estava conversando. Adivinhem... não havia ninguém mais na praia.

Quem são essas pessoas? De onde elas vêm e para aonde vão depois, que nunca mais as encontro?
Mistério.

sábado, 3 de março de 2012

Eu sempre quis comer o Kremlin

Coisa de gorda imaginar que as torres do Kremlin são de açúcar?

Construído para residência de Ivan I, o Kremlin foi a residência oficial dos Czares até a Revolução Russa de 1917. Atualmente, a construção abriga o gabinete oficial do presidente russo.
Em frente ao Kremlin, encontra-se a Praça Vermelha. Perto da praça está localizada a Catedral de São Basílio, construída na década de 1550 para comemorar a captura da fortaleza mongol de Kazan por Ivan, o Terrível. Sério demais, né, mas vai dizer que não dá vontade de lamber essas torres?

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Bonito

Foi num domingo de outono que se encontraram pela última vez antes de duas décadas de desencontros. Dez passos e ela virou pra ver se ele estava olhando, mas ele já tinha feito isso oito passos antes, enquanto ela tomava coragem, pensando no quanto ele era alto e bonito. Ela não viu, mas ele quase chamou de volta. A vida tem um compasso esquisito, conta o tempo diferente até que decida o momento exato para que eles dois voltem a se olhar ao mesmo tempo. Talvez tenha chegado a hora.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Pretérito presente

Um telefonema que levou mais de 20 anos pra acontecer.
A vida tece um tempo diferente da espera da gente.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Da série 'eu gostaria de ter escrito'

Transbordar é preciso

(Tânia Tiburzio)

Todas minhas palavras de amor são para você. As de desejo, ternura ou amizade, nem sempre. Mas as palavras de amor são todas suas, porque só você eu amo, só por você transbordo. Transbordo pela cidade, pele e poros, entre as estrelas que parecem cair no meio da estrada, no sol tímido da quarta-feira, na tela azul do computador, enquanto foge o chão e perco o ar. Não há o que fazer com tanto amor que escorre pela calçada, embriaga, afoga, encharca meus livros e meu pão. O amor me sufoca e é preciso dia após dia transbordar. Transbordo para viver e escrever cada vez mais e mais palavras de amor para você.

sábado, 31 de dezembro de 2011

Que venha o novo

Em 2011 detestei ver partir muita gente e, por outras, agradeci terem seguido seu rumo.
Quebrei um dente e fiz meu primeiro tratamento de canal em mais de três décadas de dentição permanente. Troquei de emprego, mas não deu certo, arrumei muitos frilas, voltei pro emprego antigo, comprei livros, ganhei amigos novos, refiz velhas amizades, conservei as antigas. Dei muita risada, chorei, fui a um casamento e um funeral . Fiquei de ressaca, voltei a correr, arrumei o roupeiro, doei roupas usadas, disse adeus a um grande amor e descobri que nem era tanto assim. Voltei a fazer terapia, abandonei o leite de vaca (pensei que fosse difícil), tomei banho de chuva, recebi elogios, me irritei menos com o mundo e decidi ser feliz por causa e apesar de tudo. Como diz a canção, 'que venham todos os fins porque eu sei recomeçar'. Em 2012 quero continuar a me entupir de felicidade. Quem sabe esse não seja o meu momento? Obrigada 2011, por tudo! E que venha o novo.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

parindo letras

"Este vínculo entre mim e o que eu escrevo é o vínculo mais forte que eu já tive." (Katherine Ann Porter)